quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Nas Nuvens





                 O jato deve ter sessenta lugares, duas filas de um lado, uma fila e o corredor do outro, o teto baixo. Sete da manhã, executivos, lobistas, mas também gente comum, em direção a Brasília. Da janela o garoto no colo da mãe contempla o colchão de plumas sob o avião, seus fiapos, seus ressaltos, seus afundamentos. Vez por outra rasgos longos. Daqueles rasgos despenham-se abismos.
                 O homem duas poltronas adiante segue o jornal, onde declara o chefe do banco central: “... ‘esse fluxo superabundante de dólares dos Estados Unidos está criando um aumento muito, muito substancial de liquidez em dólares para outros países e se tornando fonte de preocupações para os destinos da liquidez que está fluindo para alguns países específicos que tenham sistema de cambio flutuante’. Uma assessora esclareceu depois que Meirelles não estava criticando os EUA nem se referindo a cambio no Brasil, mas apenas respondendo a uma questão geral.”
                  A aeromoça serve sucos, refrigerantes, água mineral. E uma colação muito ligeira. Solapados pelo início de mais um horário de verão, a maioria dos passageiros ressona. O carrinho da aeromoça arremete contra um joelho descaído para o corredor. O homem recolhe a perna sem abrir os olhos.
                 A criança compreenderá talvez a liquidez nas nuvens; talvez por oposição à lembrança de seus últimos passos no solo do aeroporto acanhado de Campo Grande: o dia ainda estava fresco, um besouro de costas, lutando em sua lenta sina de agonia, que ele não desvirou: a mãe lhe explicara, noutra ocasião, da inutilidade do gesto nobre. Quando seu tempo alado se acaba, fugaz, o corpo pesa, as costas tombam para o chão, e então lutam, um tempo longo, incapazes de desmanchar a sina.
                 O colchão esfiapado das nuvens. Nada do enxame que o começo da invernada libera, nem percevejos nem besouros, nem mosquitos nem formigas e cupins alados dominam a atmosfera gélida, rarefeita, a liquidez quimérica das nuvens. 

5 comentários:

  1. Alex,

    Lindo!!! arrasou! Fino. É assim que é.

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  2. Muito bom, Alex! Vc conduz a nós, leitores, pela liquidez do nosso mundo baumanniano, onde, talvez, só a infância nos redima, faça-nos insistir em virar do casco ao chão para o céu... Parabéns!

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  3. Muito bom!! Vc anda viajando muito!! hehehheheh

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