quarta-feira, 27 de junho de 2012

Breve perfil de Milton Cabral e Babinski







            Encontrei, uns dois anos atrás, por acidente, Milton Cabral e Babinski tomando café na Livraria Cultura; estava também um filho do Babinski, acho que fotógrafo, Milton bastante emagrecido e debilitado, o lado esquerdo, especialmente o braço, quase paralisado; ainda assim, com sua comum disposição jovial, algo aristocrática, o aperto de mão forte, o sorriso quadrado e cheio de dentes que tanto o caracteriza, a voz tonante carregada no sotaque do Nordeste, elementos que tantas vezes me fazem rir ao rever sua imagem – pra mim era vê-lo aproximar-se e lembrar-me de súbito do alemão e sádico marido de Martha, do Fassbinder: “Meu querido!”

Dizem que foi discípulo de Barthes; dizem que nasceu em Natal, mas que cresceu em Fortaleza; dizem que se graduou em Letras na UFG, que deu aulas no departamento de Comunicação da UnB, que dirigiu o curso de Desenho Industrial na mesma instituição, que fundou o curso de Comunicação e o mestrado na PUC/DF; dizem até que ele mentia um bocado, ou melhor, que era esguio, se esquivava; que era vaidoso e usava cremes para a pele; que sempre trocava a idade, e assim os hagiológios ora o deram por potiguar ora por cearense,  sem saberem ao certo se encetou sua viagem, pouco depois de nosso encontro, aos 75 ou aos 64; em algum momento ele se tomou de estima pelo controverso Humberto Haydt e andou pelo Colégio Freudiano de Psicanálise de Brasília; tinha um consultório em cima do Café Martinica, e costumava, já à noite, vir beber no balcão e, dizem também, comentar seus atendimentos, espairecer a cabeça no mesmo balcão. O Martinica nunca foi nenhum Cabaré Voltaire mas, ainda que ninguém entrasse chicoteando, mesmo assim muitas vezes saía-se chicoteado com as conversas insanas alimentadas pelas goelas sedentas, mesa ou balcão.

Fora talvez um ditador idiossincrático em sala, eu não saberia dizê-lo; sei que foi, desde sempre, simpático à minha figura; nossas conversas costumavam girar sobre temas eruditos, ele um curioso perguntador, cioso das minhas produções, especialmente dos livros de gravuras das Edições Civilização Arcaica (http://goo.gl/wTlF1); de seus comentários sempre restava uma borra de invectiva contra a chusma ignorante. Nesse dia Babinski estava bem feliz e falador, e me segurou na conversa o máximo que pôde. O polonês, entre seus amigos de idade mais próxima, abandona o tom de aconselhamento professoral – seus alunos o amam como ao mestre mais querido, ele tem opinião sobre tudo, e todos têm alguma frase ou passagem para relembrar daquele dia em que buscaram seu parecer –, e passa a contar casos e a fazer anedotas, ele próprio sendo o primeiro a rir – nos últimos tempos vem com uma piada de bolso de húngaros para mim: “você conhece o doutor Pícoch no cu?” Uma vez perguntei-lhe por que não ficou em Montreal nos anos cinquenta, naquela cena de jazz e arte florescente, ele respondeu qualquer coisa como: “Eram uns babacas, era tudo muito comportado”. Aliás, naquele seu livro de entrevistas (aqui, com suavidade: http://goo.gl/FvfUb), ele diz claramente que escolheu vir para Uberaba, que escolheu juntar-se com mulher negra, porque queria estar do outro lado – mas ele, muito branco, polaco, largo e comprido, a cabeçorra, ele não falou das leis da atração... A preferência pela gravura, pela arte menor, de antemão uma escolha para fora do caminho?

Finalmente levantei-me, ficaram ambos, o gravador libertário e o sado-psicomunicólogo – mas de fato, a seu próprio modo, outro libertário –, todos visivelmente realizados com o encontro.

3 comentários:

  1. oi alex

    o milton já não pode, mas o babinski deve ler.
    abs

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  2. Atirei no que vi e acertei no que nao vi. Viva o Google.

    Sou filho do Milton Cabral e amigo do Babinski.

    Parabéns pelo texto e, principalmente, pelo desenho.

    Um abraço,

    Álvaro Viana

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  3. Lindo texto... fiquei imaginando agora o sorriso do mestre Cabral.

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