terça-feira, 31 de julho de 2012

Ah, O Amor


 
Alex Cojorian

Jovem casal no super.

Ele: “Acho que nesta quinzena é hora de comprar café.”
Ela: “Eu já peguei, amor.”
Ele: “Hum... Não era melhor o médio?”
Ela: “Mas café não estraga. Você acha melhor?”
Ele: “Você pegou o extra-forte.”
Ela: “Ah... você não gosta?...”

Ah, o Amor. O frescor da juventude, a plenitude sem nenhuma das armadilhas que o futuro engendra, a entrega sem nenhum dos lances de xadrez mental para onde as relações terminam por moldar-se!

Mais tarde, alguns, muitos, mesmo os amorosos, findarão por abandonar o jogo, agastados, esgarçados, em frangalhos pela refrega. Outros, poucos, talvez acompanhem o movimento da efígie ensimesmada do Freud, a súbita condição de impotência, a escolha pela condição de observador incondicional, o prazer particular na descoberta das engrenagens. E apenas o poder que emana do charuto entre os dedos.

Lawrence, nosso caro, amado e torturado D. H. Lawrence, chegou, por seus próprios percalços, amorosos e dolorosos, ao mesmo beco do ensimesmamento; ele, de rompantes e extremos, do amoroso idealista ao intratável e agressivo, sentindo-se impedido, falido, para os combates de Vênus, fez por sublimar sua condição no testamento amoroso que é Lady Chatterley, sem deixar de crer, por um só momento, em amar, espírito e foda.

Apesar do achado de Lawrence, ainda assim, sublimar não é bem um feito que se associe a prazer; parece mais com suprimir: insensibilize-se, cauterize-se o órgão desejante, estanque-se a dor! E aquele jovem casal rapidamente será uma miragem, um devaneio que nada trará de sublime simplicidade aos indiferentes e achacados ex-combatentes de coração empedrado que por entre o casal se esgueirem, mais preocupados com a mesquinha contabilidade doméstica e cotidiana.

Quem sabe nessa hora tenebrosa, tudo insensibilizado pelas luzes fluóricas, o sabor da vida se convertendo em metálicos enlatados, ressonasse dos auto-falantes desse grande galpão a voz séria, triste e jocosa:

Sei que é doloroso um palhaço
Se afastar do palco por alguém
Volta, que a platéia te reclama
Sei que choras palhaço
Por alguém que não te ama
Enxuga os olhos e me dá um abraço
Não te esqueças, que és um palhaço
Faça a platéia gargalhar
Um palhaço não deve chorar

Entre as prateleiras e seções, frios e congelados, plásticos e embutidos, xampus e desodorantes, uma lágrima rolasse, corações tocados pelo Nelson Cavaquinho, e se desse uma coreografia dos carrinhos e transeuntes, conversa nenhuma, só arrebatamento e gesto, despojamento e tensão dramática, toque e entrega entre desconhecidos de qualquer sexo, cada um se reinteirando em cálida presença, em meio a verduras e queijos, o sentido da pele, o reflexo dos nervos e dos músculos em meio a tomates, pães, temperos.

No centro desse movimento, entre frigoríficos, garrafas, carnes, peixes, aves expostas, o jovem casal, na sua alegria leve, sem nada a entender.

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