quinta-feira, 19 de julho de 2012

Leca e Verô


            Esteve seu governador inaugurando o novo centro de atendimento a moradores de rua – Centro POP. Chamou imprensa, ministros e secretários, e disse que a partir de agora ninguém ficará largado na rua no DF. O centro de atendimento fica junto do Parque da Cidade, o serviço foi deslocado do prédio do Touring, ao lado da Rodoviária, para fora do centro – o que faz lembrar de quando desativaram o postinho da Civil na Rodoviária, que, mais que delegacia, tinha uma força de ação social muito grande. Retóricas à parte, convidaram também os usuários do serviço. E quem veio foi Leca. Veio com o namorado, toca na cabeça, a mochila cheia de gatos. Metro e oitenta, morena e bem magrinha, usuária de tiner desde a infância. Banharam-se, e ela foi à tenda de salão de beleza que estava montada para o dia.
            Quando soube que seu governador estava lá, disse que também queria falar ao microfone, que tinha que fazer elogio, que ele estava melhorando a vida de quem tá na rua. Foi Verô quem prestou atenção, e resolveu abrir espaço entre as “otoridades”: ninguém melhor para falar daquela ação senão quem dela usa. Então, chamaram: “Quem vai falar agora é Leca, usuária do Centro POP”.
            – Boa tarde a todos, meu nome é Robismar e eu vivo na rua. Comecei a trabalhar na rua quando era criança, eu e meus irmãos. Minha mãe mandava pedir dinheiro e vender chiclete no ônibus.
            E declamou aquele toada rimada que ninguém tem paciência.
            – Era tudo mentira isso que a gente falava, mas eu terminava dizendo que “quem quiser dar de bom coração eu aceito, e quem quiser dar de mau coração eu aceito também”.
“Eu tinha outras coisas pra falar mas o tiner dissolveu meu pensamento. Eu quero agradecer a seu governador por essa coisa boa que está fazendo, o SUPER POP.”
            Verô é quem está nesse trânsito tortuoso entre os que não tem voz e os que só tem discurso. Quem está no chão, chapado, deve ter a impressão de sonho ao ver essa mulher se materializando, pernas e peitos, boca e cabelos,  seu sorriso e voz convocando para alguma coisa.
            Seu governador, despachada a cerimônia, subtraía-se do Super POP, quando ouviu a convocatória dessa essa voz e sorriso que levanta o povo da calçada: “Governador, não vai dar um abraço na sua eleitora antes de partir?” Ele tornou para Verô, foi Leca quem correu pro abraço, e bem que tentou lhe tascar beijo.

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