sábado, 10 de maio de 2014

O piano andou bebendo...


 
            — Você vai fazer uma performance?
Haha... Não, por quê?
A sua saia, de plástico.
Não, realmente. Eu gosto de moda. Eu mesmo faço as minhas roupas.
Eu gosto. E também da blusa de tule e das tatoos.
— Obrigada. Muito legais essas bonecas nas bolhas de plástico, né?
O que são?
— É o lançamento de um livro objeto, As aventuras sujetivas de Bjork.
Acho que a artista é minha amiga.  você desenha roupas ou algo assim?
Também. Eu fiz psicologia, trabalhava com psicodrama, adoro. Mas gosto de comida. Você provou esse patê de pato?
Sim. Tem de porco também. Muito bom.
Daí resolvi fazer um curso de gastronomia. Eu gosto de cozinhar, fazer os pratos.
Hum.
Mas eles ficam muito na teoria. Muita leitura, pouca cozinha. Larguei.
É. Chato.
Eu não como carne de boi. Não tem gosto! Eu gosto de porco. Bacon!
Hum... tente o patê de porco, está ótimo. Vamos tomar mais um pouco de espumante. Que mais você faz?
Gosto de experimentar os restaurantes.
Talvez possamos experimentar algo juntos.
— Sei tocar piano.
Sério?
Até hoje tenho o piano em casa.
Ainda toca?
Claro. Amo. Mas não pratico muito.
O piano. Dizem que quando Satie se foi, encontraram em seu quarto  um piano desafinado e de cordas quebradas... Uns dias atrás ouvi uma história... Um casal muito simpático, um americano e uma sino-brasileira. Eles tem andado por aí. Mudaram-se para cá vindos do Uruguai. Eles, lá, estavam procurando por um piano. Um piano de parede, como o seu. Mas então encontraram esse piano de cauda curta, um baby piano, como eles se referem. Foi amor à primeira vista. Ocupou a sala toda.
Uau.
Mais tarde, quando vieram para Brasília, foi difícil trazê-lo. Esse piano está qualhado de sentimento dentro dele... Pertenceu a uma famosa dançarina russa.
De verdade?
Um diplomata uruguaio a conheceu na União Soviética. Apaixonaram-se. Ela abandonou o palco. Acompanhou-o. E trouxeram o piano para o Uruguai.
Está quente, o espumante acabou.
No final, ela teve um câncer irremediável.
...
Eles fizeram um acordo. Ela a envenenou, para que ela não sofresse. E suicidou-se em seguida. Ficou o piano.
O piano... “the piano has been drinking... not me”
Essa música, bonita e triste. Não combina muito, está barulhento, o vernissage ainda não acabou, você não performará... ficamos sentimentais... http://www.youtube.com/watch?v=BPPtrqvHGEg

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